quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Jornalismo manda chuva




Um dos maiores cineastas da era de ouro do cinema não era apenas um mestre da mise-en-scène, porém era tão íntimo das palavras quanto das imagens. Em 1922, antes de assumir a câmera, foi repórter em Viena com apenas 17 anos, onde morou um tempo na casa do psicanalítico Sigmund Freud. Em 1926, foi jornalista dos grandes tablóides de Berlim, e depois roteirista de um dos maiores filmes do cineasta alemão Ernst Lubitsch, Ninotchka. O grande dragão da indústria cinematográfica holywoodiana o devorou quando Hitler e o nazifascismo começou a dar os seus primeiros latidos em 1933. Rodou 25 filmes em Hollywood entre 1942 e 1981, sendo que o melhor vem aí: escreveu o roteiro de todos eles (sempre a dois, pois gostava de impressionar seus parceiros com idéias insanas). Quem é ele? O austríaco Billy Wilder. Aquele diretor mais conhecido pela obra-prima Crepúsculo dos Deuses. Mas para muitos – e para ele – seu melhor filme mesmo é sobre o universo do jornalismo, A montanha dos sete abutres (1951), universo que conhecia tão bem quanto conhecia a sétima arte.

Wilder não apenas usou sua experiência de repórter para filmontar um dos maiores clássicos do cinema. A história do filme se baseia num fato real ocorrido no inverno de 1925 nos Estados Unidos, em que o explorador de cavernas Floyd Collins ficou preso, vivo, durante 18 dias nos escombros de uma caverna no Kentucky. A situação agonizante de Collins foi aproveitada pela imprensa marrom até as últimas conseqüências. No filme, quem está preso por um desmoronamento no Novo México é Leo Minosa, humilde proprietário de uma estação de serviços na estrada principal da baixa do Escudero, que sempre era advertido por sua mulher sobre o perigo das montanhas próximas dali. Leo tinha a ambição de encontrar as antiguidades indígenas escondidas nas montanhas e vendê-las em sua estação. Contudo, há outro ser ambicioso na história e tudo que Leo menos precisava encontrar: Charles Tatum (Kirk Douglas).

Não é demais ressaltar a importância do personagem vivido por Kirk Douglas – o epíteto pode ser resumido em poucas palavras: um dos mais bem protagonizados da história do cinema. Não que seja apenas mais uma medida de dramatização à trama de Wilder, contudo a força motriz da narrativa, de ponta a ponta, está confinada em seu centro – apresentada do ângulo em que todos estão à mercê do personagem interpretado por Douglas. Um jornalista sagaz, lépido, irônico, sarcástico e inescrupuloso ao mesmo tempo, Charles Tatum procura um furo jornalístico tão poderoso quanto sua ambição, capaz de tirá-lo do jornal provinciano em que atua e arremessá-lo de volta aos bancos da grande imprensa, elevando ao nível do big shot journalist. Trabalhou em jornais como Chicago American, Detroit Times, New York Times, tendo que começar tudo do zero na cidade interiorana Albuquerque.

Após sucessivas demissões causadas pelos seus truques e artimanhas espúrias, não há sinal algum de arrependimento na expressão maquiavélica deste experiente jornalista que incorporou para si a totalidade de uma conduta antiética ao ponto de “morder um cachorro” na falta de uma boa notícia. Foi vendedor de jornal nas ruas antes de chegar às cadeiras das grandes redações, e com isso aprendeu que bad news vende mais que good news, pois, sob sua visão, “boas” notícias não são notícias. É quando é enviado – um tanto contrariado e a pedido de seu editor-chefe Jacob Q. Boot (Porter Hall) – para cobrir uma caça às cascavéis de uma cidade vizinha com seu parceiro fotógrafo Herbie Cook (Bob Arthur) – diferentemente de Tatum, é acadêmico e inexperiente. E o acaso os leva aos parentes de Leo, que está soterrado nas ruínas da montanha.

O “cão farejador” encontra seu furo. Tatum quer uma história mais polêmica que a do próprio Floyd Collins. Para isso precisa de nada menos que uma semana no atraso do resgate, para escrever a história que quiser, quantas vezes quiser, alcançar dimensões de popularidade imensuráveis, colocar as agências de notícias no bolso e, por fim, voltar aos velhos tempos da redação do New York Times. Tatum age de uma forma violentamente discricionária, ad libitum. A maneira como chantageia o xerife Gus Kretzer (Ray Teal) e o engenheiro de resgate Mr. Smollet (Frank Jaquet) a manipularem os fatos e fazerem tudo como ele planeja é semelhantemente à forma como o meio jornalístico consegue negociar com políticos, empresários e magnatas de uma sociedade, para atender interesses escusos de uma minoria, menos o do público.

E por falar no público, é claramente representado na pessoa de Leo Minosa. Soterrado e imobilizado, tudo é feito nas suas costas, a verdade nunca lhe é dita em sua total integridade, portanto é traído a todo o momento, e os que o amam são traídos também. Essa traição está estampada na cara de Tatum, que atua como melhor amigo de Leo visitando-o todos os dias, mas por trás mantém seus interesses de autopromoção tão favorecidos num continuum impressionante ao nível de atrair pessoas de toda parte para as proximidades desérticas do Novo México, inclusive “cães” ferozes como ele e ex-colegas da grande imprensa. Mas o jornalista consegue manter também a exclusividade da notícia e o acesso às ruínas, obviamente, com a ajuda do xerife Kretzer.

Um circo é montado – metafórica e fisicamente. O capital gira em torno da tragédia, que se aproxima perigosamente da tragicomédia. Billy Wilder filma vendedores ambulantes, inúmeras crianças brincando no grande parque com seus pais, comerciários, negociantes e um amontoado de automóveis vindos de toda parte dos Estados Unidos. Logo se percebe a opinião de Wilder daquilo que constitui a maior atração da notícia: a curiosidade humana. O que outrora era apenas uma área desértica, virgem, virou um espaço de “profanação” dos meios de comunicação de massa.

A música do circo soa sem parar, até o clímax da traição – Tatum se envolve com Lorraine Minosa (Jan Sterling), a esposa de Leo. Lorraine nunca amou Leo, por isso pela lógica do roteiro se aliará a Tatum até o fim de linha do seu sucesso. E, por fim, vislumbra-se todo o esforço do protagonista ir por água abaixo com o final trágico de Leo, o que não estava em seus planos. Tatum consegue o contrato que tanto desejava, porém dura poucas horas. Por não conhecer limites – corrompeu a todos, menos ao editor-chefe Mr. Boot, o seu inverso que prefere a veracidade dos fatos ao invés da mentira –, a conseqüência dos seus próprios erros porá limites a ele.

Apesar de ser um filme dos anos 50, A montanha dos sete abutres do diretor-roteirista Wilder continua atual. Hoje as artimanhas de Charles Tatum são vistas como normais no meio jornalístico. A troca de favores, o clientelismo, a tradição dos negócios, a conivência, tudo caminha em sentido contrário da ética profissional da categoria. Portanto, qualificando-o como um filme básico de discussão ampla para os estudiosos da mídia.