terça-feira, 8 de setembro de 2009

Escrever



A palavra é o princípio. Matéria essencial do escritor, não é um instrumento, é uma estrutura. Está para o texto como a nota está para a melodia, ou o bloco para o edifício. Do texto o escritor é o construtor. Sua alma-mundo se perde na estrutura da palavra. Esta lhe põe na ordem do dia um sempiterno labor até o “extermínio”. Ora, escrever é enfrentar a correnteza da fadiga, é escavar o recôndito da alma para encontrar paciência, correção, perfeição, devoção. Fora Dostoiévski quem sentenciou: "para escrever bem é preciso sofrer, sofrer, sofrer."

O sentimento é o motor. O escritor não é apenas um homem que desliza letras em papel branco, não obstante apenas alarga a ambigüidade do mundo, torna-o mais inexplicável ao apontar a riqueza de um dado oculto. Sob tal preceito, a realização literária está sempre a provocar uma interrogação ad extremum: por que o mundo? Ou mesmo exclamá-lo: eis o mundo! Mas nunca o explica. Mergulhado nas águas agitadas das palavras, o escritor nada contra a conrrenteza das ideologias deterministas. Nada, sobretudo, para sobreviver  ao dilúvio de um mundo absoluto. E é justamente este dado quimérico que aponta a alma do escritor como um manancial a jorrar uma escrita-sentimento. A dimensão do seu próprio espírito é análoga a do mundo. O texto é a “fotografia” impactante deste terno encontro.

Ainda no século XIX, os proprietários absolutos da palavra eram os escritores, período no qual ela chegou ao seu auge. Beletristas da envergadura de Stendhal, Dostoievski, Flaubert, Balzac e Zola, contribuíram como nunca para a construção da linguagem literária. Veio a Revolução na Inglaterra, na França, na Rússia, até os homens se apropriarem da palavra dos escritores para fins políticos. No século XX a palavra esteve comprometida com a litterature engaggé. O artista revolucionário era o eco de uma necessidade urgente de mudança na forma e no conteúdo das artes. Tal arte punha o mundo em nova perspectiva – da qual surgia eivado – e colocava os problemas sociais na mais clarividência.

A obra (literária) é a continuação do corpo. Materialização do sonho, da angústia, da alegria, do labor e da vida, do escritor ela é o fim. O mundo é um material que lhe serve apenas de intertexto. Por enxergar o real de forma ardente em seu espírito, rejeita a linguagem doutrinária e escolhe transformá-la em espetáculo. Ao gerar a obra faz um ato de confissão: este é meu orbe, meu objeto, “é carne da minha carne”, é parte de mim. A alma do escritor está em movimento contínuo. Mal termina um parágrafo e já divaga sobre algo a ser escrito. Ela pára na palavra. A palavra é o seu fim.