sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dia da Bíblia envolve a ALBA com alegria cristã



A tradição que jamais se resistiu em se repetir de geração em geração acerca das Sagradas Escrituras, são as palavras que profetas, pensadores, mestres, reis, cientistas, escritores, políticos proferem para defini-la. A fila para se declarar algo a respeito dela é imensurável, quase incontável, de forma que a História decide devorar muitas dessas declarações até torná-las atemporais. “Desejo declarar, senhores, que a Bíblia não é nem antiga nem moderna, ela é eterna”, disparou Carlos Alberto Ferreira, Dr. em Teologia e Dir. Geral da UniCristã, na comemoração do Dia da Bíblia na Assembléia Legislativa da Bahia (ALBA).

A propósito de tantas alcunhas e de tudo que se dirá sobre a Bíblia, ela parecia, de fato, se eternizar na Assembléia Legislativa, sessão proposta pelo deputado Pr. José de Arimatéia (PRB) e bem acolhida pelo presidente Marcelo Nilo (PDT). “Este é o dia em que a ALBA se torna a casa de Deus. Iremos deixar registrado nesta Casa a importância do trabalho evangélico através da Palavra de Deus na sociedade”, ressaltou Arimatéia.

Homenagem repleta de calor eclesiástico, ao som da banda Timbaleiros de Cristo, da Fundação Doutor Jesus, criada pelo deputado Pr. Sargento Isidório (PSB), a ALBA recebeu pastores, bispos, diáconos, obreiros de mais de 20 congregações. Através do Canal Assembléia a sessão pôde ser transmitida ao Brasil e ao mundo inteiro pela internet. “Além de tratarmos aqui de um assunto tão importante quanto a Bíblia, certamente irá tocar os corações que precisam de uma mensagem”, afirmou o parlamentar.

Ao dar o primeiro pronunciamento no plenário, o deputado José de Arimatéia recordou que a data é comemorada no segundo domingo do mês de dezembro. Ela foi estabelecida pelo bispo Cranmer em 1549, ao registrá-la no livro de orações do Rei Eduardo VI. Contudo, a primeira manifestação pública no Brasil, só ocorreu quando foi fundada a SBB, em 1948. A tradição histórica revela que não só no segundo domingo de dezembro é comemorada, mas durante as duas semanas que antecedem a data.

A celebração do Dia das Letras Sagradas é insuficiente para tal causa este ano. Os números revelam que este é um ano histórico, oferecendo a seus amantes razões formidáveis para celebrá-la: 100 milhões de Bíblias distribuídas pela Sociedade Bíblica Brasileira (SBB) até o mês de junho em mais de 15 idiomas. Desta marca, 23 milhões serviram para 105 países.

Através de um leilão no mês de setembro, na casa New Hampshire (EUA) – associação americana sem fins lucrativos – se tornou conhecida a Bíblia da Lua, liberada ao astronauta Edgar Mitchell, a bordo do Apollo que decolou em 14 de fevereiro de 1971. A Bíblia da Lua foi produzida pela Liga de Oração Apollo, formada por gestores, cientistas e astronautas liderados pelo capelão John Sout.

A sessão também foi surpreendida pelo humor do deputado Pr. Sargento Isidório, que chamou atenção para um costume da cultura popular, a solicitação de um monumento à Bíblia no Dick do Tororó. “Pedi no primeiro mandato e fui criticado pela imprensa, mas não por Jesus. No segundo mandato já dei entrada, e creio que poderemos ter o monumento da Bíblia para a glória de Deus”, afirmou.

Relevância

A relevância do grande Livro Sagrado ficou a cargo do Pr. Carlos Alberto Ferreira, que com excelência presenteou a ALBA com uma explanação da inspiração, formação, resistência e importância das Escrituras. Ao início do pronunciamento citou o apóstolo Paulo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil ao ensino” (2Tm 3.16). O Pastor explica que a inspiração da palavra provém do sopro divino. “A todos quantos ela atinge é impossível permanecer o mesmo. Assim como Jesus dividiu a história da humanidade, quem quer que mantenha contacto com a Bíblia, encontra sua vida dividida em antes e depois dela”.

Quanto à história, o Pr. Carlos relembrou trajetória das Escrituras desde o Monte Sinai, onde Deus falou com Moisés até os dias de hoje. E recorda que desde o tradutor Jerônimo (séc. IV), editor da Vulgata, até Martinho Lutero (séc. XVI), ela sofreu intensa resistência. “Este livro possui muitos martelos querendo destruí-la, mas ela é a bigorna que destrói todos os martelos”, argumentou.

A saborosa ironia da história também foi recapitulada pelo Dir. da UniCristã, que relembrou o fato do renomado Voltaire ter sentenciado o desaparecimento do Livro Sagrado em 100 anos. “A casa do famoso Voltaire hoje é a sede da Sociedade Bíblica de Genebra. Voltaire passou, mas a palavra permanece para sempre. Deus não é só Senhor da nossa congregação, mas da história”, completou.

Ao término da festa, 17 pastores foram homenageados com placas honoríficas, pelo destaque na propagação do Evangelho de Cristo. Além do Pr. Carlos ter sido homenageado, estava também um dos mais antigos líderes evangélicos da Bahia, o Pr. Adalfredo Santana, com 61 anos de ministério. 12 Bíblias foram sorteadas. Segundo o deputado José de Arimatéia, “um parlamento como a ALBA não poderia deixar de ter uma sessão especial para refletir sobre a importância da Palavra de Deus, por ser um lugar onde se discute vários temas”, explicou.

    
Lista das congregações representadas:

Ig. Universal do Reino de Deus, Ig. Bíblica Peniel, Ig. Apostólica Internacional Nova Jerusalém, Ig. Batista das Nações, Ig. Assembléia de Deus de Madureira, Ig. Missionária Shekiná, Ig. Batista Maranata, Ig. Batista Vasco da Gama, Ig. Nacional da Fé em Deus, Ig. Jesus Cristo o Renovo, Ig. Casa de Oração Mensagem de Deus, Ig. Evangélica Assembléia de Deus da Boca do Rio, Ig. Batista Missionária Fonte das Águas Vivas, Ig. do Evangelho Quadrangular, Ig. Batista Adoração de Feira de Santana, Ig. Assembléia do Poder de Deus e do Fogo, Ig. Nova Israel, Ig. Batista Filadélfia, Ig. Templo de Restauração de Cristo e Ig. em Salvador. 

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cidade de Davi: as pedras que reavivam as Sagradas Letras



A história bíblica, envolvente em muitos sentidos, nos leva a uma aventura imensurável, a qual jamais hesitariam de chamá-la de poço sem fundo, provocados pelo espanto da descoberta. E “descobrir“ seria o verbo preciso para lidar com a cultura das Escrituras, como uma lente que se presta a convidar a história a reviver, seja pela arqueologia bíblica – as escavações que recupera a antiguidade –, seja pela cultura cristã – o acesso à inspiração divina a fim de não somente interpretá-la, mas devorar suas riquezas.

A arqueologia contemporânea explora às proximidades do rio Giom e a sudeste da região do Monte do Templo, no Oriente, a Cidade de Davi, as ruínas que atestam o surgimento da Jerusalém israelita há mais de 3 mil anos. Ao estabelecê-la como a capital unificada das tribos de Israel, o rei Davi fez nascer o que hoje atrai mais de 350 mil pessoas todos os anos, segundo a City of David Foundation (Fundação Cidade de Davi). 
 
Dedicada à preservação e ao desenvolvimento da cidade bíblica desde 1986, a Fundação está engajada em quatro empreendimentos: escavações arqueológicas, turismo, programas educacionais e revitalização residencial. As atividades tomam dimensões no Parque Nacional da Cidade de Davi, no extenso passeio público Armon Hanatziv e no Monte das Oliveiras. “É como se achássemos a Bíblia pela primeira vez. Você pode seguir a Bíblia linha a linha e reviver as cenas”, diz Doron Spielman, porta-voz da Fundação.

Dentro dos seus muros senis, encontra-se o intenso eco de uma cidade histórica e profética. É nesta cordilheira sulina de Israel que Davi escreveu seus Salmos.  E na sucessão do seu trono, Salomão construiu o Santo Templo. Foi onde trovoaram as profecias de Jeremias e Isaías. Onde Neemias, tirsata da Judéia, reedificou suas muralhas em meio a grande oposição após o retorno da Babilônia, a qual fez dos judeus filhos do cativeiro. Há cerca de 2,000 anos, foi palco do maior espetáculo da humanidade, o calvário do Cordeiro de Deus, Jesus. “Aqui está uma revolução onde o mundo arqueológico e o mundo das Sagradas Letras se entrecruzam, de forma tal que não acontece em mais lugar algum”, explica Spielman.   

As constantes atividades de escavações promovem achados formidáveis, que dão consistência à história e cultura escriturísticas. A descoberta das ruínas do palácio de Davi, escavação liderada pelos arqueólogos Eilat Mazar e Gabi Barkai, é datada cerca de 1,000 anos a. C. Há também o túnel construído no séc. VII a. C. para proteger o suprimento de água da cidade contra o assédio do rei assírio Senaqueribe – denominado pela arqueologia de Túnel de Ezequias.

Ainda há alguns anos, a arqueologia revelou o Tanque de Siloé, o qual foi mencionado por Neemias e depois no Evangelho de João, onde Jesus cura um cego de nascença. Esta escavação levou o time do arqueólogo Ronnie Reich à descoberta do caminho que conduz do tanque até a área do Monte do Templo, cujo registro bíblico mostra onde Jesus caminhou para a comemoração do Pesach (Páscoa). “Simplesmente posso ver que ele caminhava por aqui. Não há outro caminho do tanque de Siloé ao Monte do Templo. Essa é a via”, disse Reich.

Irresistível é admitir que a Cidade de Davi, a qual as Escrituras outrora chamava de Sião, se tornou incomparável a outras cidades. Nas esquinas e praças presenteadas pelo movimento de inúmeros turistas, constata-se a presença onírica do espírito da realeza davídica. Assim como Isaías insistia em sua canonização: Desperta, desperta, reveste-te da tua fortaleza, ó Sião; veste-te das tuas roupagens formosas, ó Jerusalém, cidade santa (Is 52.1). “Esta é uma Disney bíblica que é real. Você pode tocar as pedras, o texto, e quase pode vislumbrar os personagens bíblicos caminhando contigo neste tour”, completa Spielman.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A UniCristã abre curso de Capelania


A literatura hoje

Enrique Vila-Matas: celebra o fim da literatura em Dublin em seu último romance


A Cabala, ramo místico do judaísmo, acreditava que cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico era um anjo. De sorte que, a palavra escrita nada mais seria do que uma determinada reunião de anjos, e um livro só nos emocionaria e diria algo se os anjos, reunidos de certa forma, nos falassem por meio dele. Em toda a história, a palavra nunca fora tão estimada como no meio literário. Mais que apenas usá-la, o desafio é se apropriar dela. É aqui que tal material transcende para o mágico, o poderoso, o enigmático, capaz de conceber potencial estético e semântico a uma obra. 

E se encontrássemos um fim para a reunião dos anjos, pondo à perda anos a fio da escrita mágica? Há mais de um século, os proprietários da palavra usaram-na para predizer uma maldição que hoje incomoda tanto que nada pode causar mais asfixia na história da arte: a morte da literatura

O que?! Quem foi o primeiro a anunciá-la? Digo-vos: esta resposta seria tão difícil quanto escrever um romance. Entretanto, candidato não falta com a língua engatilhada a assassinar os anjos. O escritor e filósofo Sartre, em 1948, finalizou seu ensaio O que é a literatura? com o seguinte remate à guisa de esclarecimento: “Nada nos garante que a literatura seja imortal. O mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem”. 

O teórico francês Maurice Blanchot, em 1959, também não poupou as palavras: “A literatura vai em direção a ela mesma, em direção à sua essência, que é o desaparecimento”. Ainda, a advertência de um dos medalhões da crítica literária do século XX, Roland Barthes, que afirmou: “Algo ronda a nossa história: a morte da literatura”.

Alguns ensaios, na década passada, aumentam o diálogo: O último escritor e Desencanto da literatura (R. Millet, 2005 e 2007); O último leitor (R. Piglia, 2006); O silêncio dos livros (G. Steiner, 2006); A literatura em perigo (T. Todorov, 2007).  E entre outros por aí pelo mundo, que estão a completar este coral que está a entoar o estado fúnebre desta arte.

Embriaguez Literária

A literatura, no século XXI, se torna o dedo que aponta para cara de sua própria morte, como se sentisse a dor do último suspiro. Ubi dolor, ubi digitus – o dedo prontamente aponta para o lugar da dor. Sim, o assunto se tornou tão sério que levou escritores atuais a se embebedarem dela ao ponto de encarná-la. É necessário se embriagar com os grandes romances e assim por um fim à causa mortis literária.  Eis o estilo da metaliteratura, do qual o catalão Enrique Vila-Matas é o principal autor. 

O que escrevem? Sobre a morte da literatura; a desaparição de grandes escritores como James Joyce, Thomas Mann, Julio Navarro, André Gide, Robert Walser, Kafka, Ernest Hemingay, entre outros; a falta de critérios de avaliação estável para uma obra; o desaparecimento do crítico erudito; o escasseamento de estilos inovadores que confiram vigor e estética a propósito de romances densos e ousados; enfim, a morte do bom leitor. 

É pela iminência que ecoa deste sino catastrófico que o escritor Vila-Matas devora tal declaração do apocalipse literário para transformá-la na própria literatura. Há uma década, o tão premiado artista vem desenvolvendo um gênero repleto de um tríplice savior-faire: a arte do diário, romance e ensaio literário. Em Bartleby e companhia (2000), ele trata de uma série de escritores que se recusam a escrever atingidos pelo “mal de Bartleby” – o artista que abandona a literatura ao se encontrar num estado de patologia ágrafa, como poderia ser o caso de Rimbaud que exclamou ao seu amigo Delahaye: “Não me interesso mais por isso”. “Isso” era a poesia. 

Em O mal de Montano (2002) a maldição é adversa. Um diarista se converte em narrador à medida que se descobre doente de literatura. Alguém impregnado de citações e análises literárias para as circunstâncias mais insignificantes – a literatose, como qualificou Onetti acerca da obsessão pelo mundo dos livros. Este estado crônico leva-o a conflitos acirrados com sua mulher e seu melhor amigo. Ao perceber o problema geral que ronda a história da literatura, não resiste em contemplar uma causa nobre para sua doença: combater o não-literário no mundo. O diarista-narrador tece propositalmente uma obra ensopada de citações, fragmentos e ecos de outras obras que parecem sair das páginas para o infinito.

Doutor Pasavento (2006) expõe a alma de escritores que querem desaparecer. É nesta via ultraliterária que o diarista-narrador se identifica com a veia literária de Robert Walser, um escritor que, com o inteiro domínio de seu ofício, escrevia para se ausentar, sumir pela letra. 

Dublinesca (2010), seu último romance, prossegue a viagem metaliterária com a história de um editor aposentado que carrega o tormento simultâneo de seu envelhecimento pessoal e o desaparecimento dos grandes escritores, dos editores e de leitores à altura da chef-d’oeuvre. Ademais, nos deparamos com a comportas do réquiem à era de Gutenberg: a ausência de Deus, a obsolescência dos livros, a ruína da literatura. 

E para selar este fenômeno escatológico não seria mais significativo do que voltar a Dublin, com companheiros doentes pela arte, para celebrar o “Bloomsday” numa cerimônia realizada no cemitério descrito por Joyce em Ulisses (1921). Em uma entrevista, o romancista argumentou se tratar da passagem de uma época de epifania – com seu auge em James Joyce – a uma época de afonia, encarnada pelo outro: "a decadência de certa forma de entender a literatura".

Fases

Ao longo de sua história a literatura começou a sentir-se dupla, isto é, ao mesmo tempo objeto e olhar sobre este objeto, fala e fala dessa fala. Segundo Roland Barthes, podemos distinguir as fases desse desenvolvimento da seguinte forma: 1) consciência artesanal da fabricação literária, levada até o escrúpulo doloroso, ao tormento do impossível (Flaubert); 2) a vontade heróica de confundir numa mesma substância escrita a literatura e o pensamento da literatura (Mallarmé); 3) a esperança de chegar a escapar da tautologia literária, deixando sempre, por assim dizer, a literatura para o dia seguinte, declarando longamente que se vai escrever, e fazendo dessa declaração a própria literatura (Proust, Gide); 4) o processo da boa-fé literária multiplicando voluntariamente, sistematicamente, até o infinito, os sentidos da palavra objeto sem nunca se deter num significado unívoco (surrealismo); 5) afinal, rarefazendo esses sentidos a ponto de esperar um estar-ali da linguagem literária, uma espécie de brancura da escritura (Robbe-Grillet).

Escrita

A praga está solta. Diante dela nada mais há a fazer senão escrever. Escrever muito, acerca de qualquer coisa que seja, uma vez que produza s e pensamentos parasitas que combatam o não-literário no mundo. Portanto, enquanto escrevo sobre o fim da reunião dos anjos, começa a pensar sobre o regresso de Deus, o descobrimento do Paraíso, as línguas angelicais, a eternidade. De fato, temas que transcendem qualquer possibilidade de um fim.

Quebrando o silêncio de Deus

Dr. Craig: osso duro de roer.

As perguntas, por muitas vezes, causam situações embaraçosas quando são dirigidas a quem não está hábil a respondê-las. Algumas delas não se calam há mais de seis séculos, desde que o teólogo Tomás de Aquino começou a rabiscar argumentos para as seguintes: Deus existe? Quais são as evidências? O que é o universo e qual o propósito de sua existência? O que são os anjos? Estas podem parecer complicadas, mas não para o Dr. William Lane Craig, professor e pesquisador de filosofia da religião da Escola de Teologia Talbot, na Califórnia. Depois de sua aparição, certas indagações se tornaram temas de inúmeros debates contra ateístas por todo o mundo.

Ao se dedicar à teologia e filosofia, levantar argumentos para a existência de Deus seria um exercício científico e religioso fundamental para Craig. Desde os 23 anos (1974), já era assíduo estudante de filosofia da religião, quando costumava preencher uma folha de papel em branco com muitas questões metafísicas. Segundo ele, o cristão não deve recusar lidar com as dúvidas. “Sempre haverá uma maleta de questões não-respondidas na estante. Eu encorajo as pessoas, em momento oportuno, a tirarem da maleta e pesquisar ao máximo até acharem uma satisfação intelectual para elas. Fiz isto com muitas questões, é uma das experiências espirituais mais saudáveis”, aconselhou.

De fato, não há como negar que o pesquisador seja afeito aos desafios que provocam as interrogações. Em debates, quase sempre, abre a apresentação com seu questionamento preferido: por que existe o Ser em vez do nada. Craig salienta que este questionamento possui uma profunda força existencial que tem admirado grandes pensadores da história humana. O grande Aristóteles ensinava que a filosofia começa com um senso de reflexão sobre o mundo e sua origem.

Em seu frenesi filosófico, o professor esbarrou em duas respostas plausíveis para a questão. 1) Leibniz, em 1686, havia sustentado que o ser existe em lugar do nada porque um Ser necessário existe e carrega dentro de si sua razão de existência, a qual é a razão suficiente para a existência de todo ser contingente. 2) John Hick definiu este Ser necessário como eterno, sem causa, indestrutível e incorruptível. Era a faca e o queijo na mão para Craig desenvolver seu melhor argumento filosófico: o Kalam cosmológico, o qual sustenta ser Deus a origem do cosmos, a razão contingente, incriada e indestrutível de todos os outros seres. A escolha do vocábulo arábico kalam (discurso, fala) faz uma ligação direta com o Gênesis das Escrituras Sagradas, que descreve Deus criando o cosmos pela palavra.

O Kalam cosmológico passou a ser um dos principais temas filosóficos discutidos entre ateístas e teístas desde o final do século passado. Até hoje a ciência não conseguiu sustentar um argumento com teor suficientemente sólido para negar a existência da Divindade. “O mistério do ser em lugar do nada nos remete a questões metafísicas, as quais não podem ser respondidas em um nível científico como o da biologia, física, química, matemática, pois elas não lidam com respostas para explicar o porquê de não existir nada. É um questionamento filosófico”, acrescentou.

O preparo de Craig ao longo de anos através intensa pesquisa é visível em seus confrontos. Possuidor de uma desmedida habilidade retórica, costuma enfraquecer o discurso dos seus opositores quando cometem erros lógicos e falham em apresentar ideias com consistência, coerência e fundamento científico. No final de 2010, nocauteou o biólogo ateísta Richard Dawkings no México, no debate O universo tem um propósito?. Este foi o mais esperado desde os rumores que rondaram o Youtube acerca do pretexto que Dawkings inventou sobre jamais confrontar “alguém que vive para debates”.

Em seu livro A desilusão de Deus (2007), Dawkings afirma ter um argumento central para a inexistência de uma entidade transcendente. Expõe que não se pode inferir um designer (criador) para o universo baseado na complexidade imanente do universo. De acordo com ele, esta premissa levaria a uma pergunta ulterior: quem desenhou o designer? O que evidenciaria uma complexidade biológica inexplicável.

Dr. Craig, para combater o livro, saiu pelos programas de TV dando entrevistas a respeito do fracasso de A desilusão de Deus. “É um argumento inepto! Filósofos da ciência defendem que para reconhecer que explicação x é a melhor, você não precisa de uma explicação da explicação x. Suponha que os astronautas encontrassem uma pilha de máquinas escondida na lua, justificariam sobre a inferência de ser um produto de um design inteligente, mesmo que não tivessem uma ideia sequer de quem poderia produzi-lo ou como foi parar lá. O mesmo se aplica à complexidade biológica. Para reconhecer que o design inteligente é a melhor explicação para esta complexidade, não precisamos explicar o designer”, argumentou.

A revolução que Craig causou na esfera acadêmica da filosofia torna seu trabalho tão histórico, que causa náuseas aos novos ateístas. De fato, em toda história, nunca houve um homem tão desesperado para evidenciar a existência do seu Criador. Quando questionado sobre os atuais ateístas, no programa canadense The Michael Coren Show, declarou: “Os livros que neo-ateístas como Harris, Dawkings e Hitchens estão produzindo não são intelectualmente sofisticados, são apenas livros irados contra a religião. Como filósofo, diria que é um constrangimento”.

A carreira do pesquisador não apenas se tornou formidável pelos debates, muito mais surpreendente foi após ter confrontado (1998) com um dos maiores filósofos ateístas britânicos da história, Antony Flew, na Universidade de Wisconsin. Os dois gigantes debateram sobre a existência de Deus diante de 4.000 estudantes. 
Em 2010, o mundo assistiria um acontecimento histórico: Flew assumira, pouco antes de morrer, uma posição teísta da ciência ao analisar a intrincada complexidade do DNA. Tal postura colocou 50 anos de sua carreira antiteológica nas profundezas do abismo. Seu artigo mais popular, Teologia e falsificação, tinha sido a publicação filosófica mais reimpressa do último século. Contudo, ele finalizou sua carreira com um livro polêmico, cujo título deu urticárias em seus ex-companheiros apologetas, Um ateu garante: Deus existe (2007).


Evidências


Os argumentos que evidenciam a presença de um Criador para o universo são, de costume, citados por William Lane Craig no início dos seus debates. Eles são:
1. Contingência – Por que as coisas existem em lugar do nada. Deus seria a melhor explicação para este questionamento.
2. Kalam Cosmológico – Deus sendo a melhor explicação para a origem do universo em algum tempo passado. Ele traria o mundo à existência a partir do nada como único sujeito do verbo criar. Salienta que não é possível haver uma regressão infinita de causas para as coisas existentes.
3. Design – aperfeiçoamento notável ou fino ajuste (fine-tuning, em inglês) das condições iniciais do universo para uma vida inteligente.
4. Moral – Deus como a melhor explicação para valores e deveres morais objetivos existentes no mundo.
5. Ontológico – Este argumento complementa os outros. Infere que a possibilidade da existência de Deus implica-o como realidade. Isto é, se uma inteligência criadora transcendente é possível, logo ela existe.
6. Experiência pessoal – Para este argumento, o filósofo acredita que aqueles que buscam a Deus, além de encontrarem evidências suficientes de sua existência, descobrirão um relacionamento pessoal com Ele pela fé.

Obras

O professor Craig já publicou mais de 30 livros. Os principais e mais comentados são: O argumento Kalam Cosmológico (1979). Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus (Acessando a evidência do Novo Testamento para a historicidade da ressurreição de Jesus, 1989); Divine Foreknowledge and Human Freedom (Presciência divina e liberdade humana, 1990); Theism, Atheism and Big Bang Cosmology (Teísmo, ateísmo e Big-bang cosmologia, 1995) ; and God, Time and Eternity (Deus, tempo e eternidade, 2001).