segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Quebrando o silêncio de Deus

Dr. Craig: osso duro de roer.

As perguntas, por muitas vezes, causam situações embaraçosas quando são dirigidas a quem não está hábil a respondê-las. Algumas delas não se calam há mais de seis séculos, desde que o teólogo Tomás de Aquino começou a rabiscar argumentos para as seguintes: Deus existe? Quais são as evidências? O que é o universo e qual o propósito de sua existência? O que são os anjos? Estas podem parecer complicadas, mas não para o Dr. William Lane Craig, professor e pesquisador de filosofia da religião da Escola de Teologia Talbot, na Califórnia. Depois de sua aparição, certas indagações se tornaram temas de inúmeros debates contra ateístas por todo o mundo.

Ao se dedicar à teologia e filosofia, levantar argumentos para a existência de Deus seria um exercício científico e religioso fundamental para Craig. Desde os 23 anos (1974), já era assíduo estudante de filosofia da religião, quando costumava preencher uma folha de papel em branco com muitas questões metafísicas. Segundo ele, o cristão não deve recusar lidar com as dúvidas. “Sempre haverá uma maleta de questões não-respondidas na estante. Eu encorajo as pessoas, em momento oportuno, a tirarem da maleta e pesquisar ao máximo até acharem uma satisfação intelectual para elas. Fiz isto com muitas questões, é uma das experiências espirituais mais saudáveis”, aconselhou.

De fato, não há como negar que o pesquisador seja afeito aos desafios que provocam as interrogações. Em debates, quase sempre, abre a apresentação com seu questionamento preferido: por que existe o Ser em vez do nada. Craig salienta que este questionamento possui uma profunda força existencial que tem admirado grandes pensadores da história humana. O grande Aristóteles ensinava que a filosofia começa com um senso de reflexão sobre o mundo e sua origem.

Em seu frenesi filosófico, o professor esbarrou em duas respostas plausíveis para a questão. 1) Leibniz, em 1686, havia sustentado que o ser existe em lugar do nada porque um Ser necessário existe e carrega dentro de si sua razão de existência, a qual é a razão suficiente para a existência de todo ser contingente. 2) John Hick definiu este Ser necessário como eterno, sem causa, indestrutível e incorruptível. Era a faca e o queijo na mão para Craig desenvolver seu melhor argumento filosófico: o Kalam cosmológico, o qual sustenta ser Deus a origem do cosmos, a razão contingente, incriada e indestrutível de todos os outros seres. A escolha do vocábulo arábico kalam (discurso, fala) faz uma ligação direta com o Gênesis das Escrituras Sagradas, que descreve Deus criando o cosmos pela palavra.

O Kalam cosmológico passou a ser um dos principais temas filosóficos discutidos entre ateístas e teístas desde o final do século passado. Até hoje a ciência não conseguiu sustentar um argumento com teor suficientemente sólido para negar a existência da Divindade. “O mistério do ser em lugar do nada nos remete a questões metafísicas, as quais não podem ser respondidas em um nível científico como o da biologia, física, química, matemática, pois elas não lidam com respostas para explicar o porquê de não existir nada. É um questionamento filosófico”, acrescentou.

O preparo de Craig ao longo de anos através intensa pesquisa é visível em seus confrontos. Possuidor de uma desmedida habilidade retórica, costuma enfraquecer o discurso dos seus opositores quando cometem erros lógicos e falham em apresentar ideias com consistência, coerência e fundamento científico. No final de 2010, nocauteou o biólogo ateísta Richard Dawkings no México, no debate O universo tem um propósito?. Este foi o mais esperado desde os rumores que rondaram o Youtube acerca do pretexto que Dawkings inventou sobre jamais confrontar “alguém que vive para debates”.

Em seu livro A desilusão de Deus (2007), Dawkings afirma ter um argumento central para a inexistência de uma entidade transcendente. Expõe que não se pode inferir um designer (criador) para o universo baseado na complexidade imanente do universo. De acordo com ele, esta premissa levaria a uma pergunta ulterior: quem desenhou o designer? O que evidenciaria uma complexidade biológica inexplicável.

Dr. Craig, para combater o livro, saiu pelos programas de TV dando entrevistas a respeito do fracasso de A desilusão de Deus. “É um argumento inepto! Filósofos da ciência defendem que para reconhecer que explicação x é a melhor, você não precisa de uma explicação da explicação x. Suponha que os astronautas encontrassem uma pilha de máquinas escondida na lua, justificariam sobre a inferência de ser um produto de um design inteligente, mesmo que não tivessem uma ideia sequer de quem poderia produzi-lo ou como foi parar lá. O mesmo se aplica à complexidade biológica. Para reconhecer que o design inteligente é a melhor explicação para esta complexidade, não precisamos explicar o designer”, argumentou.

A revolução que Craig causou na esfera acadêmica da filosofia torna seu trabalho tão histórico, que causa náuseas aos novos ateístas. De fato, em toda história, nunca houve um homem tão desesperado para evidenciar a existência do seu Criador. Quando questionado sobre os atuais ateístas, no programa canadense The Michael Coren Show, declarou: “Os livros que neo-ateístas como Harris, Dawkings e Hitchens estão produzindo não são intelectualmente sofisticados, são apenas livros irados contra a religião. Como filósofo, diria que é um constrangimento”.

A carreira do pesquisador não apenas se tornou formidável pelos debates, muito mais surpreendente foi após ter confrontado (1998) com um dos maiores filósofos ateístas britânicos da história, Antony Flew, na Universidade de Wisconsin. Os dois gigantes debateram sobre a existência de Deus diante de 4.000 estudantes. 
Em 2010, o mundo assistiria um acontecimento histórico: Flew assumira, pouco antes de morrer, uma posição teísta da ciência ao analisar a intrincada complexidade do DNA. Tal postura colocou 50 anos de sua carreira antiteológica nas profundezas do abismo. Seu artigo mais popular, Teologia e falsificação, tinha sido a publicação filosófica mais reimpressa do último século. Contudo, ele finalizou sua carreira com um livro polêmico, cujo título deu urticárias em seus ex-companheiros apologetas, Um ateu garante: Deus existe (2007).


Evidências


Os argumentos que evidenciam a presença de um Criador para o universo são, de costume, citados por William Lane Craig no início dos seus debates. Eles são:
1. Contingência – Por que as coisas existem em lugar do nada. Deus seria a melhor explicação para este questionamento.
2. Kalam Cosmológico – Deus sendo a melhor explicação para a origem do universo em algum tempo passado. Ele traria o mundo à existência a partir do nada como único sujeito do verbo criar. Salienta que não é possível haver uma regressão infinita de causas para as coisas existentes.
3. Design – aperfeiçoamento notável ou fino ajuste (fine-tuning, em inglês) das condições iniciais do universo para uma vida inteligente.
4. Moral – Deus como a melhor explicação para valores e deveres morais objetivos existentes no mundo.
5. Ontológico – Este argumento complementa os outros. Infere que a possibilidade da existência de Deus implica-o como realidade. Isto é, se uma inteligência criadora transcendente é possível, logo ela existe.
6. Experiência pessoal – Para este argumento, o filósofo acredita que aqueles que buscam a Deus, além de encontrarem evidências suficientes de sua existência, descobrirão um relacionamento pessoal com Ele pela fé.

Obras

O professor Craig já publicou mais de 30 livros. Os principais e mais comentados são: O argumento Kalam Cosmológico (1979). Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus (Acessando a evidência do Novo Testamento para a historicidade da ressurreição de Jesus, 1989); Divine Foreknowledge and Human Freedom (Presciência divina e liberdade humana, 1990); Theism, Atheism and Big Bang Cosmology (Teísmo, ateísmo e Big-bang cosmologia, 1995) ; and God, Time and Eternity (Deus, tempo e eternidade, 2001).