Enrique Vila-Matas: celebra o fim da literatura em Dublin em seu último romance
A Cabala, ramo místico do judaísmo, acreditava que cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico era um anjo. De sorte que, a palavra escrita nada mais seria do que uma determinada reunião de anjos, e um livro só nos emocionaria e diria algo se os anjos, reunidos de certa forma, nos falassem por meio dele. Em toda a história, a palavra nunca fora tão estimada como no meio literário. Mais que apenas usá-la, o desafio é se apropriar dela. É aqui que tal material transcende para o mágico, o poderoso, o enigmático, capaz de conceber potencial estético e semântico a uma obra.
E se encontrássemos um fim para a reunião dos anjos, pondo à perda anos a fio da escrita mágica? Há mais de um século, os proprietários da palavra usaram-na para predizer uma maldição que hoje incomoda tanto que nada pode causar mais asfixia na história da arte: a morte da literatura.
O que?! Quem foi o primeiro a anunciá-la? Digo-vos: esta resposta seria tão difícil quanto escrever um romance. Entretanto, candidato não falta com a língua engatilhada a assassinar os anjos. O escritor e filósofo Sartre, em 1948, finalizou seu ensaio O que é a literatura? com o seguinte remate à guisa de esclarecimento: “Nada nos garante que a literatura seja imortal. O mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem”.
O teórico francês Maurice Blanchot, em 1959, também não poupou as palavras: “A literatura vai em direção a ela mesma, em direção à sua essência, que é o desaparecimento”. Ainda, a advertência de um dos medalhões da crítica literária do século XX, Roland Barthes, que afirmou: “Algo ronda a nossa história: a morte da literatura”.
Alguns ensaios, na década passada, aumentam o diálogo: O último escritor e Desencanto da literatura (R. Millet, 2005 e 2007); O último leitor (R. Piglia, 2006); O silêncio dos livros (G. Steiner, 2006); A literatura em perigo (T. Todorov, 2007). E entre outros por aí pelo mundo, que estão a completar este coral que está a entoar o estado fúnebre desta arte.
Embriaguez Literária
A literatura, no século XXI, se torna o dedo que aponta para cara de sua própria morte, como se sentisse a dor do último suspiro. Ubi dolor, ubi digitus – o dedo prontamente aponta para o lugar da dor. Sim, o assunto se tornou tão sério que levou escritores atuais a se embebedarem dela ao ponto de encarná-la. É necessário se embriagar com os grandes romances e assim por um fim à causa mortis literária. Eis o estilo da metaliteratura, do qual o catalão Enrique Vila-Matas é o principal autor.
O que escrevem? Sobre a morte da literatura; a desaparição de grandes escritores como James Joyce, Thomas Mann, Julio Navarro, André Gide, Robert Walser, Kafka, Ernest Hemingay, entre outros; a falta de critérios de avaliação estável para uma obra; o desaparecimento do crítico erudito; o escasseamento de estilos inovadores que confiram vigor e estética a propósito de romances densos e ousados; enfim, a morte do bom leitor.
É pela iminência que ecoa deste sino catastrófico que o escritor Vila-Matas devora tal declaração do apocalipse literário para transformá-la na própria literatura. Há uma década, o tão premiado artista vem desenvolvendo um gênero repleto de um tríplice savior-faire: a arte do diário, romance e ensaio literário. Em Bartleby e companhia (2000), ele trata de uma série de escritores que se recusam a escrever atingidos pelo “mal de Bartleby” – o artista que abandona a literatura ao se encontrar num estado de patologia ágrafa, como poderia ser o caso de Rimbaud que exclamou ao seu amigo Delahaye: “Não me interesso mais por isso”. “Isso” era a poesia.
Em O mal de Montano (2002) a maldição é adversa. Um diarista se converte em narrador à medida que se descobre doente de literatura. Alguém impregnado de citações e análises literárias para as circunstâncias mais insignificantes – a literatose, como qualificou Onetti acerca da obsessão pelo mundo dos livros. Este estado crônico leva-o a conflitos acirrados com sua mulher e seu melhor amigo. Ao perceber o problema geral que ronda a história da literatura, não resiste em contemplar uma causa nobre para sua doença: combater o não-literário no mundo. O diarista-narrador tece propositalmente uma obra ensopada de citações, fragmentos e ecos de outras obras que parecem sair das páginas para o infinito.
Doutor Pasavento (2006) expõe a alma de escritores que querem desaparecer. É nesta via ultraliterária que o diarista-narrador se identifica com a veia literária de Robert Walser, um escritor que, com o inteiro domínio de seu ofício, escrevia para se ausentar, sumir pela letra.
Dublinesca (2010), seu último romance, prossegue a viagem metaliterária com a história de um editor aposentado que carrega o tormento simultâneo de seu envelhecimento pessoal e o desaparecimento dos grandes escritores, dos editores e de leitores à altura da chef-d’oeuvre. Ademais, nos deparamos com a comportas do réquiem à era de Gutenberg: a ausência de Deus, a obsolescência dos livros, a ruína da literatura.
E para selar este fenômeno escatológico não seria mais significativo do que voltar a Dublin, com companheiros doentes pela arte, para celebrar o “Bloomsday” numa cerimônia realizada no cemitério descrito por Joyce em Ulisses (1921). Em uma entrevista, o romancista argumentou se tratar da passagem de uma época de epifania – com seu auge em James Joyce – a uma época de afonia, encarnada pelo outro: "a decadência de certa forma de entender a literatura".
Fases
Ao longo de sua história a literatura começou a sentir-se dupla, isto é, ao mesmo tempo objeto e olhar sobre este objeto, fala e fala dessa fala. Segundo Roland Barthes, podemos distinguir as fases desse desenvolvimento da seguinte forma: 1) consciência artesanal da fabricação literária, levada até o escrúpulo doloroso, ao tormento do impossível (Flaubert); 2) a vontade heróica de confundir numa mesma substância escrita a literatura e o pensamento da literatura (Mallarmé); 3) a esperança de chegar a escapar da tautologia literária, deixando sempre, por assim dizer, a literatura para o dia seguinte, declarando longamente que se vai escrever, e fazendo dessa declaração a própria literatura (Proust, Gide); 4) o processo da boa-fé literária multiplicando voluntariamente, sistematicamente, até o infinito, os sentidos da palavra objeto sem nunca se deter num significado unívoco (surrealismo); 5) afinal, rarefazendo esses sentidos a ponto de esperar um estar-ali da linguagem literária, uma espécie de brancura da escritura (Robbe-Grillet).
Escrita
A praga está solta. Diante dela nada mais há a fazer senão escrever. Escrever muito, acerca de qualquer coisa que seja, uma vez que produza s e pensamentos parasitas que combatam o não-literário no mundo. Portanto, enquanto escrevo sobre o fim da reunião dos anjos, começa a pensar sobre o regresso de Deus, o descobrimento do Paraíso, as línguas angelicais, a eternidade. De fato, temas que transcendem qualquer possibilidade de um fim.
