segunda-feira, 15 de agosto de 2011
A literatura hoje
Enrique Vila-Matas: celebra o fim da literatura em Dublin em seu último romance
A Cabala, ramo místico do judaísmo, acreditava que cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico era um anjo. De sorte que, a palavra escrita nada mais seria do que uma determinada reunião de anjos, e um livro só nos emocionaria e diria algo se os anjos, reunidos de certa forma, nos falassem por meio dele. Em toda a história, a palavra nunca fora tão estimada como no meio literário. Mais que apenas usá-la, o desafio é se apropriar dela. É aqui que tal material transcende para o mágico, o poderoso, o enigmático, capaz de conceber potencial estético e semântico a uma obra.
E se encontrássemos um fim para a reunião dos anjos, pondo à perda anos a fio da escrita mágica? Há mais de um século, os proprietários da palavra usaram-na para predizer uma maldição que hoje incomoda tanto que nada pode causar mais asfixia na história da arte: a morte da literatura.
O que?! Quem foi o primeiro a anunciá-la? Digo-vos: esta resposta seria tão difícil quanto escrever um romance. Entretanto, candidato não falta com a língua engatilhada a assassinar os anjos. O escritor e filósofo Sartre, em 1948, finalizou seu ensaio O que é a literatura? com o seguinte remate à guisa de esclarecimento: “Nada nos garante que a literatura seja imortal. O mundo pode muito bem passar sem a literatura. Mas pode passar ainda melhor sem o homem”.
O teórico francês Maurice Blanchot, em 1959, também não poupou as palavras: “A literatura vai em direção a ela mesma, em direção à sua essência, que é o desaparecimento”. Ainda, a advertência de um dos medalhões da crítica literária do século XX, Roland Barthes, que afirmou: “Algo ronda a nossa história: a morte da literatura”.
Alguns ensaios, na década passada, aumentam o diálogo: O último escritor e Desencanto da literatura (R. Millet, 2005 e 2007); O último leitor (R. Piglia, 2006); O silêncio dos livros (G. Steiner, 2006); A literatura em perigo (T. Todorov, 2007). E entre outros por aí pelo mundo, que estão a completar este coral que está a entoar o estado fúnebre desta arte.
Embriaguez Literária
A literatura, no século XXI, se torna o dedo que aponta para cara de sua própria morte, como se sentisse a dor do último suspiro. Ubi dolor, ubi digitus – o dedo prontamente aponta para o lugar da dor. Sim, o assunto se tornou tão sério que levou escritores atuais a se embebedarem dela ao ponto de encarná-la. É necessário se embriagar com os grandes romances e assim por um fim à causa mortis literária. Eis o estilo da metaliteratura, do qual o catalão Enrique Vila-Matas é o principal autor.
O que escrevem? Sobre a morte da literatura; a desaparição de grandes escritores como James Joyce, Thomas Mann, Julio Navarro, André Gide, Robert Walser, Kafka, Ernest Hemingay, entre outros; a falta de critérios de avaliação estável para uma obra; o desaparecimento do crítico erudito; o escasseamento de estilos inovadores que confiram vigor e estética a propósito de romances densos e ousados; enfim, a morte do bom leitor.
É pela iminência que ecoa deste sino catastrófico que o escritor Vila-Matas devora tal declaração do apocalipse literário para transformá-la na própria literatura. Há uma década, o tão premiado artista vem desenvolvendo um gênero repleto de um tríplice savior-faire: a arte do diário, romance e ensaio literário. Em Bartleby e companhia (2000), ele trata de uma série de escritores que se recusam a escrever atingidos pelo “mal de Bartleby” – o artista que abandona a literatura ao se encontrar num estado de patologia ágrafa, como poderia ser o caso de Rimbaud que exclamou ao seu amigo Delahaye: “Não me interesso mais por isso”. “Isso” era a poesia.
Em O mal de Montano (2002) a maldição é adversa. Um diarista se converte em narrador à medida que se descobre doente de literatura. Alguém impregnado de citações e análises literárias para as circunstâncias mais insignificantes – a literatose, como qualificou Onetti acerca da obsessão pelo mundo dos livros. Este estado crônico leva-o a conflitos acirrados com sua mulher e seu melhor amigo. Ao perceber o problema geral que ronda a história da literatura, não resiste em contemplar uma causa nobre para sua doença: combater o não-literário no mundo. O diarista-narrador tece propositalmente uma obra ensopada de citações, fragmentos e ecos de outras obras que parecem sair das páginas para o infinito.
Doutor Pasavento (2006) expõe a alma de escritores que querem desaparecer. É nesta via ultraliterária que o diarista-narrador se identifica com a veia literária de Robert Walser, um escritor que, com o inteiro domínio de seu ofício, escrevia para se ausentar, sumir pela letra.
Dublinesca (2010), seu último romance, prossegue a viagem metaliterária com a história de um editor aposentado que carrega o tormento simultâneo de seu envelhecimento pessoal e o desaparecimento dos grandes escritores, dos editores e de leitores à altura da chef-d’oeuvre. Ademais, nos deparamos com a comportas do réquiem à era de Gutenberg: a ausência de Deus, a obsolescência dos livros, a ruína da literatura.
E para selar este fenômeno escatológico não seria mais significativo do que voltar a Dublin, com companheiros doentes pela arte, para celebrar o “Bloomsday” numa cerimônia realizada no cemitério descrito por Joyce em Ulisses (1921). Em uma entrevista, o romancista argumentou se tratar da passagem de uma época de epifania – com seu auge em James Joyce – a uma época de afonia, encarnada pelo outro: "a decadência de certa forma de entender a literatura".
Fases
Ao longo de sua história a literatura começou a sentir-se dupla, isto é, ao mesmo tempo objeto e olhar sobre este objeto, fala e fala dessa fala. Segundo Roland Barthes, podemos distinguir as fases desse desenvolvimento da seguinte forma: 1) consciência artesanal da fabricação literária, levada até o escrúpulo doloroso, ao tormento do impossível (Flaubert); 2) a vontade heróica de confundir numa mesma substância escrita a literatura e o pensamento da literatura (Mallarmé); 3) a esperança de chegar a escapar da tautologia literária, deixando sempre, por assim dizer, a literatura para o dia seguinte, declarando longamente que se vai escrever, e fazendo dessa declaração a própria literatura (Proust, Gide); 4) o processo da boa-fé literária multiplicando voluntariamente, sistematicamente, até o infinito, os sentidos da palavra objeto sem nunca se deter num significado unívoco (surrealismo); 5) afinal, rarefazendo esses sentidos a ponto de esperar um estar-ali da linguagem literária, uma espécie de brancura da escritura (Robbe-Grillet).
Escrita
A praga está solta. Diante dela nada mais há a fazer senão escrever. Escrever muito, acerca de qualquer coisa que seja, uma vez que produza s e pensamentos parasitas que combatam o não-literário no mundo. Portanto, enquanto escrevo sobre o fim da reunião dos anjos, começa a pensar sobre o regresso de Deus, o descobrimento do Paraíso, as línguas angelicais, a eternidade. De fato, temas que transcendem qualquer possibilidade de um fim.
Quebrando o silêncio de Deus
Dr. Craig: osso duro de roer.
As perguntas, por muitas vezes, causam situações embaraçosas quando são dirigidas a quem não está hábil a respondê-las. Algumas delas não se calam há mais de seis séculos, desde que o teólogo Tomás de Aquino começou a rabiscar argumentos para as seguintes: Deus existe? Quais são as evidências? O que é o universo e qual o propósito de sua existência? O que são os anjos? Estas podem parecer complicadas, mas não para o Dr. William Lane Craig, professor e pesquisador de filosofia da religião da Escola de Teologia Talbot, na Califórnia. Depois de sua aparição, certas indagações se tornaram temas de inúmeros debates contra ateístas por todo o mundo.
Ao se dedicar à teologia e filosofia, levantar argumentos para a existência de Deus seria um exercício científico e religioso fundamental para Craig. Desde os 23 anos (1974), já era assíduo estudante de filosofia da religião, quando costumava preencher uma folha de papel em branco com muitas questões metafísicas. Segundo ele, o cristão não deve recusar lidar com as dúvidas. “Sempre haverá uma maleta de questões não-respondidas na estante. Eu encorajo as pessoas, em momento oportuno, a tirarem da maleta e pesquisar ao máximo até acharem uma satisfação intelectual para elas. Fiz isto com muitas questões, é uma das experiências espirituais mais saudáveis”, aconselhou.
De fato, não há como negar que o pesquisador seja afeito aos desafios que provocam as interrogações. Em debates, quase sempre, abre a apresentação com seu questionamento preferido: por que existe o Ser em vez do nada. Craig salienta que este questionamento possui uma profunda força existencial que tem admirado grandes pensadores da história humana. O grande Aristóteles ensinava que a filosofia começa com um senso de reflexão sobre o mundo e sua origem.
Em seu frenesi filosófico, o professor esbarrou em duas respostas plausíveis para a questão. 1) Leibniz, em 1686, havia sustentado que o ser existe em lugar do nada porque um Ser necessário existe e carrega dentro de si sua razão de existência, a qual é a razão suficiente para a existência de todo ser contingente. 2) John Hick definiu este Ser necessário como eterno, sem causa, indestrutível e incorruptível. Era a faca e o queijo na mão para Craig desenvolver seu melhor argumento filosófico: o Kalam cosmológico, o qual sustenta ser Deus a origem do cosmos, a razão contingente, incriada e indestrutível de todos os outros seres. A escolha do vocábulo arábico kalam (discurso, fala) faz uma ligação direta com o Gênesis das Escrituras Sagradas, que descreve Deus criando o cosmos pela palavra.
O Kalam cosmológico passou a ser um dos principais temas filosóficos discutidos entre ateístas e teístas desde o final do século passado. Até hoje a ciência não conseguiu sustentar um argumento com teor suficientemente sólido para negar a existência da Divindade. “O mistério do ser em lugar do nada nos remete a questões metafísicas, as quais não podem ser respondidas em um nível científico como o da biologia, física, química, matemática, pois elas não lidam com respostas para explicar o porquê de não existir nada. É um questionamento filosófico”, acrescentou.
O preparo de Craig ao longo de anos através intensa pesquisa é visível em seus confrontos. Possuidor de uma desmedida habilidade retórica, costuma enfraquecer o discurso dos seus opositores quando cometem erros lógicos e falham em apresentar ideias com consistência, coerência e fundamento científico. No final de 2010, nocauteou o biólogo ateísta Richard Dawkings no México, no debate O universo tem um propósito?. Este foi o mais esperado desde os rumores que rondaram o Youtube acerca do pretexto que Dawkings inventou sobre jamais confrontar “alguém que vive para debates”.
Em seu livro A desilusão de Deus (2007), Dawkings afirma ter um argumento central para a inexistência de uma entidade transcendente. Expõe que não se pode inferir um designer (criador) para o universo baseado na complexidade imanente do universo. De acordo com ele, esta premissa levaria a uma pergunta ulterior: quem desenhou o designer? O que evidenciaria uma complexidade biológica inexplicável.
Dr. Craig, para combater o livro, saiu pelos programas de TV dando entrevistas a respeito do fracasso de A desilusão de Deus. “É um argumento inepto! Filósofos da ciência defendem que para reconhecer que explicação x é a melhor, você não precisa de uma explicação da explicação x. Suponha que os astronautas encontrassem uma pilha de máquinas escondida na lua, justificariam sobre a inferência de ser um produto de um design inteligente, mesmo que não tivessem uma ideia sequer de quem poderia produzi-lo ou como foi parar lá. O mesmo se aplica à complexidade biológica. Para reconhecer que o design inteligente é a melhor explicação para esta complexidade, não precisamos explicar o designer”, argumentou.
A revolução que Craig causou na esfera acadêmica da filosofia torna seu trabalho tão histórico, que causa náuseas aos novos ateístas. De fato, em toda história, nunca houve um homem tão desesperado para evidenciar a existência do seu Criador. Quando questionado sobre os atuais ateístas, no programa canadense The Michael Coren Show, declarou: “Os livros que neo-ateístas como Harris, Dawkings e Hitchens estão produzindo não são intelectualmente sofisticados, são apenas livros irados contra a religião. Como filósofo, diria que é um constrangimento”.
A carreira do pesquisador não apenas se tornou formidável pelos debates, muito mais surpreendente foi após ter confrontado (1998) com um dos maiores filósofos ateístas britânicos da história, Antony Flew, na Universidade de Wisconsin. Os dois gigantes debateram sobre a existência de Deus diante de 4.000 estudantes.
Em 2010, o mundo assistiria um acontecimento histórico: Flew assumira, pouco antes de morrer, uma posição teísta da ciência ao analisar a intrincada complexidade do DNA. Tal postura colocou 50 anos de sua carreira antiteológica nas profundezas do abismo. Seu artigo mais popular, Teologia e falsificação, tinha sido a publicação filosófica mais reimpressa do último século. Contudo, ele finalizou sua carreira com um livro polêmico, cujo título deu urticárias em seus ex-companheiros apologetas, Um ateu garante: Deus existe (2007).
Evidências
Os argumentos que evidenciam a presença de um Criador para o universo são, de costume, citados por William Lane Craig no início dos seus debates. Eles são:
1. Contingência – Por que as coisas existem em lugar do nada. Deus seria a melhor explicação para este questionamento.
2. Kalam Cosmológico – Deus sendo a melhor explicação para a origem do universo em algum tempo passado. Ele traria o mundo à existência a partir do nada como único sujeito do verbo criar. Salienta que não é possível haver uma regressão infinita de causas para as coisas existentes.
3. Design – aperfeiçoamento notável ou fino ajuste (fine-tuning, em inglês) das condições iniciais do universo para uma vida inteligente.
4. Moral – Deus como a melhor explicação para valores e deveres morais objetivos existentes no mundo.
5. Ontológico – Este argumento complementa os outros. Infere que a possibilidade da existência de Deus implica-o como realidade. Isto é, se uma inteligência criadora transcendente é possível, logo ela existe.
6. Experiência pessoal – Para este argumento, o filósofo acredita que aqueles que buscam a Deus, além de encontrarem evidências suficientes de sua existência, descobrirão um relacionamento pessoal com Ele pela fé.
Obras
O professor Craig já publicou mais de 30 livros. Os principais e mais comentados são: O argumento Kalam Cosmológico (1979). Assessing the New Testament Evidence for the Historicity of the Resurrection of Jesus (Acessando a evidência do Novo Testamento para a historicidade da ressurreição de Jesus, 1989); Divine Foreknowledge and Human Freedom (Presciência divina e liberdade humana, 1990); Theism, Atheism and Big Bang Cosmology (Teísmo, ateísmo e Big-bang cosmologia, 1995) ; and God, Time and Eternity (Deus, tempo e eternidade, 2001).
Links: www.reasonablefaith.org
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