quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Uma passagem poética





A morte, o enigma que abraça o último suspiro da existência, é um grande mistério. Ora é nela que o ser animado se depara com a evitabilidade da vida, pois a morte nada mais é do que esta fealdade radical que extermina o seu vigoroso suspiro. Então, ela é compreendida – por projeções antropomorfas – como um encerramento, um fechar de portas. Ou não? Será? Com toda esta radicalidade brusca, pode a morte ser bela? Poderia o espírito humano ir além da razão para alcançar projeções poéticas referentes a ela? São estes questionamentos que propõe o filme A partida (Okuribito), do diretor Yôjirô Takita.

O homem sendo uma entidade complexa é altamente hiperviva. Por isto mesmo que a idéia do aniquilamento de si lhe discursa uma via contraditória. Seu hiper intento, ao provar de deliciosos sabores vivificantes, é viver in aeternum a beleza e a alegria da vida. A porta que o leva a uma via contrária certamente lhe enfada e enfara.

Devido a esta terrível vitalidade incansável, o homo demens em seu delírio poético apossa-se de um grau de efabilidade para divagar sobre o inefável, até que se construa o mito: a morte não é o fim, é uma partida, uma passagem de um mundo para o outro, por isto mesmo ruptura. É o que o filme de Takita transmite ao expor um ritual formidável de acondicionamento de cadáveres pelas mãos do jovem Daigo (Masairo Motoki) e seu mestre Shoei Sasaki (Tsutomu Yamasaki). Um ritual da tradição japonesa, repleto de disciplina, ternura e simplicidade que precede o Noukan (pôr no caixão) e prepara o defunto para uma pacífica partida.

Daigo Kobayashi (Masairo Motoki), jovem sensível à música, busca alimentar sua realização pessoal na carreira de violoncelista, a qual recebera influência do pai Hideki Kobayashi (Toru Mineghishi) que o abandonou na estação mais importante da vida, a infância. Seu sonho é soberbo e belo: tocar em uma orquestra sinfônica de Tóquio. Porém, após uma exibição, seu grupo de ensaio é dissolvido, o que faz mudar todo destino por ele traçado. Ao perceber a profundidade da frustração que lhe sobreveio e a dívida referente à compra do violoncelo, decide vendê-lo e voltar com sua mulher Mika (Riyoco Hirosue) à cidade Yagamata, para seu lar vazio e triste desde que sua mãe morrera.

É em busca de um novo emprego que Daigo esbarra com as peripécias do destino. Encontra o velho Shoei Sasaki, mestre na arte de embelezamento de cadáveres, cujo primeiro cliente fora sua própria esposa, morta há nove anos. A princípio, Daigo, o homem privado de realizar o seu sonho, desconfia irresolutamente do valor de tal atividade fúnebre, o que faz evocar toda uma linguagem lírica e uma viagem ao recôndito de sua consciência.

É a estranheza da vida e as brincadeiras do destino que o leva a um estado de profundas indagações carregadas de simbologia. Uma delas é quando está às margens de um rio, pelas redondezas de Yagamata, onde vislumbra alguns salmões nadando até a morte contra a corrente, então divaga: “para que nadar tanto para depois morrer?” Ou ainda na cena que discute com Mika, sua mulher que está a implorar consternadamente a desistência de tal trabalho “ínfimo” e “anormal”. Daigo, subitamente, questiona o que é ser normal. Indaga, sobretudo, se a morte não é algo normal e se ela não faz parte da vida. A partir daí acompanhamos um processo de maturação do personagem, o qual atinge o estágio da plena consciência da morte. Vive o homo demens decidido a romper com os limites do cárcere da razão, para alcançar um estado poético diante da partida do outro. É aí que o telespectador é levado a acreditar que a morte está mais perto do que se pode imaginar.

A partida (Okuribito) é este mar calmo, sereno, conciso e recheado de simplicidade metafórica com montagem in progress. Só nos deparamos com o flashback quando mergulhamos na vaga, quase morta e singularíssima lembrança que Daigo guardou no íntimo de sua memória, no momento em que recebe uma pedra-carta do seu pai ainda criança – pedra que os antigos doavam, antes da escrita, para expressar seus sentimentos ao outro através da textura e peso. Além de tanta riqueza em detalhes, o filme é traz a magnífica trilha sonora de Joe Hisaishi, com uma bela canção-tema de sua autoria. Há as canções de peças como o Hino à Alegria, da Nona Sinfonia, de Beethoven, com coro e orquestra; a Ave Maria, de Gounod; e o Wiegenlied, de Brahms, em solo de violoncelo. Destilamento, in totum, de uma simplicidade artística formidável.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Escrever



A palavra é o princípio. Matéria essencial do escritor, não é um instrumento, é uma estrutura. Está para o texto como a nota está para a melodia, ou o bloco para o edifício. Do texto o escritor é o construtor. Sua alma-mundo se perde na estrutura da palavra. Esta lhe põe na ordem do dia um sempiterno labor até o “extermínio”. Ora, escrever é enfrentar a correnteza da fadiga, é escavar o recôndito da alma para encontrar paciência, correção, perfeição, devoção. Fora Dostoiévski quem sentenciou: "para escrever bem é preciso sofrer, sofrer, sofrer."

O sentimento é o motor. O escritor não é apenas um homem que desliza letras em papel branco, não obstante apenas alarga a ambigüidade do mundo, torna-o mais inexplicável ao apontar a riqueza de um dado oculto. Sob tal preceito, a realização literária está sempre a provocar uma interrogação ad extremum: por que o mundo? Ou mesmo exclamá-lo: eis o mundo! Mas nunca o explica. Mergulhado nas águas agitadas das palavras, o escritor nada contra a conrrenteza das ideologias deterministas. Nada, sobretudo, para sobreviver  ao dilúvio de um mundo absoluto. E é justamente este dado quimérico que aponta a alma do escritor como um manancial a jorrar uma escrita-sentimento. A dimensão do seu próprio espírito é análoga a do mundo. O texto é a “fotografia” impactante deste terno encontro.

Ainda no século XIX, os proprietários absolutos da palavra eram os escritores, período no qual ela chegou ao seu auge. Beletristas da envergadura de Stendhal, Dostoievski, Flaubert, Balzac e Zola, contribuíram como nunca para a construção da linguagem literária. Veio a Revolução na Inglaterra, na França, na Rússia, até os homens se apropriarem da palavra dos escritores para fins políticos. No século XX a palavra esteve comprometida com a litterature engaggé. O artista revolucionário era o eco de uma necessidade urgente de mudança na forma e no conteúdo das artes. Tal arte punha o mundo em nova perspectiva – da qual surgia eivado – e colocava os problemas sociais na mais clarividência.

A obra (literária) é a continuação do corpo. Materialização do sonho, da angústia, da alegria, do labor e da vida, do escritor ela é o fim. O mundo é um material que lhe serve apenas de intertexto. Por enxergar o real de forma ardente em seu espírito, rejeita a linguagem doutrinária e escolhe transformá-la em espetáculo. Ao gerar a obra faz um ato de confissão: este é meu orbe, meu objeto, “é carne da minha carne”, é parte de mim. A alma do escritor está em movimento contínuo. Mal termina um parágrafo e já divaga sobre algo a ser escrito. Ela pára na palavra. A palavra é o seu fim.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Jornalismo manda chuva




Um dos maiores cineastas da era de ouro do cinema não era apenas um mestre da mise-en-scène, porém era tão íntimo das palavras quanto das imagens. Em 1922, antes de assumir a câmera, foi repórter em Viena com apenas 17 anos, onde morou um tempo na casa do psicanalítico Sigmund Freud. Em 1926, foi jornalista dos grandes tablóides de Berlim, e depois roteirista de um dos maiores filmes do cineasta alemão Ernst Lubitsch, Ninotchka. O grande dragão da indústria cinematográfica holywoodiana o devorou quando Hitler e o nazifascismo começou a dar os seus primeiros latidos em 1933. Rodou 25 filmes em Hollywood entre 1942 e 1981, sendo que o melhor vem aí: escreveu o roteiro de todos eles (sempre a dois, pois gostava de impressionar seus parceiros com idéias insanas). Quem é ele? O austríaco Billy Wilder. Aquele diretor mais conhecido pela obra-prima Crepúsculo dos Deuses. Mas para muitos – e para ele – seu melhor filme mesmo é sobre o universo do jornalismo, A montanha dos sete abutres (1951), universo que conhecia tão bem quanto conhecia a sétima arte.

Wilder não apenas usou sua experiência de repórter para filmontar um dos maiores clássicos do cinema. A história do filme se baseia num fato real ocorrido no inverno de 1925 nos Estados Unidos, em que o explorador de cavernas Floyd Collins ficou preso, vivo, durante 18 dias nos escombros de uma caverna no Kentucky. A situação agonizante de Collins foi aproveitada pela imprensa marrom até as últimas conseqüências. No filme, quem está preso por um desmoronamento no Novo México é Leo Minosa, humilde proprietário de uma estação de serviços na estrada principal da baixa do Escudero, que sempre era advertido por sua mulher sobre o perigo das montanhas próximas dali. Leo tinha a ambição de encontrar as antiguidades indígenas escondidas nas montanhas e vendê-las em sua estação. Contudo, há outro ser ambicioso na história e tudo que Leo menos precisava encontrar: Charles Tatum (Kirk Douglas).

Não é demais ressaltar a importância do personagem vivido por Kirk Douglas – o epíteto pode ser resumido em poucas palavras: um dos mais bem protagonizados da história do cinema. Não que seja apenas mais uma medida de dramatização à trama de Wilder, contudo a força motriz da narrativa, de ponta a ponta, está confinada em seu centro – apresentada do ângulo em que todos estão à mercê do personagem interpretado por Douglas. Um jornalista sagaz, lépido, irônico, sarcástico e inescrupuloso ao mesmo tempo, Charles Tatum procura um furo jornalístico tão poderoso quanto sua ambição, capaz de tirá-lo do jornal provinciano em que atua e arremessá-lo de volta aos bancos da grande imprensa, elevando ao nível do big shot journalist. Trabalhou em jornais como Chicago American, Detroit Times, New York Times, tendo que começar tudo do zero na cidade interiorana Albuquerque.

Após sucessivas demissões causadas pelos seus truques e artimanhas espúrias, não há sinal algum de arrependimento na expressão maquiavélica deste experiente jornalista que incorporou para si a totalidade de uma conduta antiética ao ponto de “morder um cachorro” na falta de uma boa notícia. Foi vendedor de jornal nas ruas antes de chegar às cadeiras das grandes redações, e com isso aprendeu que bad news vende mais que good news, pois, sob sua visão, “boas” notícias não são notícias. É quando é enviado – um tanto contrariado e a pedido de seu editor-chefe Jacob Q. Boot (Porter Hall) – para cobrir uma caça às cascavéis de uma cidade vizinha com seu parceiro fotógrafo Herbie Cook (Bob Arthur) – diferentemente de Tatum, é acadêmico e inexperiente. E o acaso os leva aos parentes de Leo, que está soterrado nas ruínas da montanha.

O “cão farejador” encontra seu furo. Tatum quer uma história mais polêmica que a do próprio Floyd Collins. Para isso precisa de nada menos que uma semana no atraso do resgate, para escrever a história que quiser, quantas vezes quiser, alcançar dimensões de popularidade imensuráveis, colocar as agências de notícias no bolso e, por fim, voltar aos velhos tempos da redação do New York Times. Tatum age de uma forma violentamente discricionária, ad libitum. A maneira como chantageia o xerife Gus Kretzer (Ray Teal) e o engenheiro de resgate Mr. Smollet (Frank Jaquet) a manipularem os fatos e fazerem tudo como ele planeja é semelhantemente à forma como o meio jornalístico consegue negociar com políticos, empresários e magnatas de uma sociedade, para atender interesses escusos de uma minoria, menos o do público.

E por falar no público, é claramente representado na pessoa de Leo Minosa. Soterrado e imobilizado, tudo é feito nas suas costas, a verdade nunca lhe é dita em sua total integridade, portanto é traído a todo o momento, e os que o amam são traídos também. Essa traição está estampada na cara de Tatum, que atua como melhor amigo de Leo visitando-o todos os dias, mas por trás mantém seus interesses de autopromoção tão favorecidos num continuum impressionante ao nível de atrair pessoas de toda parte para as proximidades desérticas do Novo México, inclusive “cães” ferozes como ele e ex-colegas da grande imprensa. Mas o jornalista consegue manter também a exclusividade da notícia e o acesso às ruínas, obviamente, com a ajuda do xerife Kretzer.

Um circo é montado – metafórica e fisicamente. O capital gira em torno da tragédia, que se aproxima perigosamente da tragicomédia. Billy Wilder filma vendedores ambulantes, inúmeras crianças brincando no grande parque com seus pais, comerciários, negociantes e um amontoado de automóveis vindos de toda parte dos Estados Unidos. Logo se percebe a opinião de Wilder daquilo que constitui a maior atração da notícia: a curiosidade humana. O que outrora era apenas uma área desértica, virgem, virou um espaço de “profanação” dos meios de comunicação de massa.

A música do circo soa sem parar, até o clímax da traição – Tatum se envolve com Lorraine Minosa (Jan Sterling), a esposa de Leo. Lorraine nunca amou Leo, por isso pela lógica do roteiro se aliará a Tatum até o fim de linha do seu sucesso. E, por fim, vislumbra-se todo o esforço do protagonista ir por água abaixo com o final trágico de Leo, o que não estava em seus planos. Tatum consegue o contrato que tanto desejava, porém dura poucas horas. Por não conhecer limites – corrompeu a todos, menos ao editor-chefe Mr. Boot, o seu inverso que prefere a veracidade dos fatos ao invés da mentira –, a conseqüência dos seus próprios erros porá limites a ele.

Apesar de ser um filme dos anos 50, A montanha dos sete abutres do diretor-roteirista Wilder continua atual. Hoje as artimanhas de Charles Tatum são vistas como normais no meio jornalístico. A troca de favores, o clientelismo, a tradição dos negócios, a conivência, tudo caminha em sentido contrário da ética profissional da categoria. Portanto, qualificando-o como um filme básico de discussão ampla para os estudiosos da mídia.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Jornalismo e ciberespaço

A medida que o jornalismo passa a ser mais digital do que impresso no novo século, o ciberespaço pode ser mesmo o lugar ideal para a nova geração de profissionais. É uma laranja que os comunicadores estão aptos a se deleitar todo dia. Publicar sem depender de uma ordem prévia, sem precisar se preocupar com o tempo e o espaço, escolher a imagem ao bel prazer, escolher o manancial de palavras, postar quantos textos for possível durante o dia, são arregalias almejadas por qualquer pessoa que se diga jornalista.
Eis aqui um cuja liberdade do ciberespaço lhe cairá bem. Neste blog publicarei textos teológicos e jornalísticos. Forte abraço!