A morte, o enigma que abraça o último suspiro da existência, é um grande mistério. Ora é nela que o ser animado se depara com a evitabilidade da vida, pois a morte nada mais é do que esta fealdade radical que extermina o seu vigoroso suspiro. Então, ela é compreendida – por projeções antropomorfas – como um encerramento, um fechar de portas. Ou não? Será? Com toda esta radicalidade brusca, pode a morte ser bela? Poderia o espírito humano ir além da razão para alcançar projeções poéticas referentes a ela? São estes questionamentos que propõe o filme A partida (Okuribito), do diretor Yôjirô Takita.
O homem sendo uma entidade complexa é altamente hiperviva. Por isto mesmo que a idéia do aniquilamento de si lhe discursa uma via contraditória. Seu hiper intento, ao provar de deliciosos sabores vivificantes, é viver in aeternum a beleza e a alegria da vida. A porta que o leva a uma via contrária certamente lhe enfada e enfara.
Devido a esta terrível vitalidade incansável, o homo demens em seu delírio poético apossa-se de um grau de efabilidade para divagar sobre o inefável, até que se construa o mito: a morte não é o fim, é uma partida, uma passagem de um mundo para o outro, por isto mesmo ruptura. É o que o filme de Takita transmite ao expor um ritual formidável de acondicionamento de cadáveres pelas mãos do jovem Daigo (Masairo Motoki) e seu mestre Shoei Sasaki (Tsutomu Yamasaki). Um ritual da tradição japonesa, repleto de disciplina, ternura e simplicidade que precede o Noukan (pôr no caixão) e prepara o defunto para uma pacífica partida.
Daigo Kobayashi (Masairo Motoki), jovem sensível à música, busca alimentar sua realização pessoal na carreira de violoncelista, a qual recebera influência do pai Hideki Kobayashi (Toru Mineghishi) que o abandonou na estação mais importante da vida, a infância. Seu sonho é soberbo e belo: tocar em uma orquestra sinfônica de Tóquio. Porém, após uma exibição, seu grupo de ensaio é dissolvido, o que faz mudar todo destino por ele traçado. Ao perceber a profundidade da frustração que lhe sobreveio e a dívida referente à compra do violoncelo, decide vendê-lo e voltar com sua mulher Mika (Riyoco Hirosue) à cidade Yagamata, para seu lar vazio e triste desde que sua mãe morrera.
É em busca de um novo emprego que Daigo esbarra com as peripécias do destino. Encontra o velho Shoei Sasaki, mestre na arte de embelezamento de cadáveres, cujo primeiro cliente fora sua própria esposa, morta há nove anos. A princípio, Daigo, o homem privado de realizar o seu sonho, desconfia irresolutamente do valor de tal atividade fúnebre, o que faz evocar toda uma linguagem lírica e uma viagem ao recôndito de sua consciência.
É a estranheza da vida e as brincadeiras do destino que o leva a um estado de profundas indagações carregadas de simbologia. Uma delas é quando está às margens de um rio, pelas redondezas de Yagamata, onde vislumbra alguns salmões nadando até a morte contra a corrente, então divaga: “para que nadar tanto para depois morrer?” Ou ainda na cena que discute com Mika, sua mulher que está a implorar consternadamente a desistência de tal trabalho “ínfimo” e “anormal”. Daigo, subitamente, questiona o que é ser normal. Indaga, sobretudo, se a morte não é algo normal e se ela não faz parte da vida. A partir daí acompanhamos um processo de maturação do personagem, o qual atinge o estágio da plena consciência da morte. Vive o homo demens decidido a romper com os limites do cárcere da razão, para alcançar um estado poético diante da partida do outro. É aí que o telespectador é levado a acreditar que a morte está mais perto do que se pode imaginar.
A partida (Okuribito) é este mar calmo, sereno, conciso e recheado de simplicidade metafórica com montagem in progress. Só nos deparamos com o flashback quando mergulhamos na vaga, quase morta e singularíssima lembrança que Daigo guardou no íntimo de sua memória, no momento em que recebe uma pedra-carta do seu pai ainda criança – pedra que os antigos doavam, antes da escrita, para expressar seus sentimentos ao outro através da textura e peso. Além de tanta riqueza em detalhes, o filme é traz a magnífica trilha sonora de Joe Hisaishi, com uma bela canção-tema de sua autoria. Há as canções de peças como o Hino à Alegria, da Nona Sinfonia, de Beethoven, com coro e orquestra; a Ave Maria, de Gounod; e o Wiegenlied, de Brahms, em solo de violoncelo. Destilamento, in totum, de uma simplicidade artística formidável.
