quarta-feira, 24 de abril de 2013

O Reparo do Mundo



Ao vislumbrar a grande aflição que jaz no mundo atual são inúmeras as sensações de desesperança e desespero por parte da população mundial. A perseguição religiosa apenas aumentou neste tempo, enquanto vemos diante de nossos olhos o debate pelo estímulo do pecado e da imoralidade (acredite se quiser) nos órgãos públicos. Na Inglaterra, mil sacerdotes católicos denunciaram que a liberdade de praticar e propagar a fé será severamente comprometida se o casamento de pessoas do mesmo sexo for aprovado.

E tudo que brota no balanço deste novo inverno são indagações indesejadas como: “Por que Deus permite que coisas terríveis aconteçam?” Sim, julgaríamos ligeiramente tudo estar indo na direção contrária, embora o Evangelho ainda seja a promessa irrevogável de uma esperança muito superior do que qualquer outra que se possa encontrar.

Rabi Isaque Luria, assíduo estudioso da Torá, conhecido pelas suas longas estadias a sós no Rio Nilo, percebeu, como nós, que em seu mundo muitas coisas não estavam no lugar certo. “Talvez”, ele sugeriu, “é porque Deus precise de nossa ajuda”. E tentou explicar o que nos salta à vista com uma história mística.

Ao delimitar em primeira instância a criação do mundo, Deus planejou derramar um Spectrum de Luz Santa a fim de fazer tudo se tornar real. Deus preparou vasos para conter a Luz Santa. Mas no decorrer da criação algo deu errado. A Luz era tão radiante que os vasos estouraram, estilhaçando em milhões de pedaços quebrados como pratos que caem ao chão. A expressão hebraica que Luria usou para este evento do “quebrar de vasos” é sh’virat ha-kaylim.

O mundo se tornou uma balbúrdia porque está cheio de fragmentos. Quando as pessoas se magoam umas às outras elas consentem que o nosso mundo continue em estilhaços. O mesmo poderia dizer daqueles que mantém suas dispensas cheia de alimento enquanto outros passam fome. Luria, que já não está mais neste mundo, decerto diria que vivemos em meio a uma multidão de pedaços quebrados, e Deus não pode repará-lo sozinho. Temos a liberdade de escolher o que queremos que o nosso mundo seja. Podemos permitir que as coisas permaneçam quebradas, ou podemos reparar o estrago. Para o fenômeno de “reparação do mundo”, Luria usa a expressão hebraica tikkun olam.

Como agentes e mensageiros de Deus, nossa incumbência é descobrir o que está estilhaçado em nosso mundo para que possamos repará-lo. A Bíblia Sagrada não só nos ensina a viver como cidadãos do Reino dos Céus, mas a como restaurar o mundo. Ao colocar Adão e Eva no Jardim do Éden, Deus não somente disse a eles que não comessem da árvore do conhecimento, mas ordenou que protegessem e cultivassem o jardim.

A vida é uma dádiva de Deus a cada ser. E a história de Adão e Eva continua a acontecer a cada pessoa. O Jardim do Éden é o nosso mundo, e somos Adão e Eva. Quando Deus diz, “Cultivai e guardai o Jardim”, Ele também diz, “Cuida do seu mundo e proteja-o”.

Quando vir algo quebrado, conserte. Quando achar algo que está perdido, retorne-o. Quando vir algo que precisa ser feito, faça. Desta forma cuidará do seu mundo e terá a oportunidade de reparar a criação. Se assim fosse com todos, nosso mundo seria um verdadeiro Éden, um lugar que assim Deus planejara que fosse. Comece com pequenos passos, jamais desprezando os humildes começos.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

A tragédia eleitoral de 2008: Reflexões




O significado clássico da palavra tragédia diz respeito à impossibilidade de, uma vez em movimento, se alterar o curso dos acontecimentos. Segundo Max Gehringer, o sentido figurado de ‘desastre de grandes proporções’ nasceu no século XV na bela França, devido ao fato de as tragédias teatrais gregas, ao contrário dos filmes americanos, nunca apresentarem um final feliz.  Na tragédia grega, curiosamente, o fim terrível era antevisto, todavia, nada se podia fazer para evitá-lo. 

Eis a sensação que paira sobre as eleições de 2008. É um dos episódios eleitorais que não costumamos lembrar, pois dá asco, dá urticárias no estômago e nos enoja falar de ‘desastres em grandes proporções’ na bela Península Itapagipana, o paraíso esquecido. Mas o que houve?! O que é que há?! Não lembra? Pare um pouco e iremos recordar.

A Península Itapagipana possui 11 bairros e aproximadamente 86 mil eleitores. Contudo, apenas 77 mil são eleitores votantes, ou seja, que realmente vão às urnas para usar os dedinhos e decidir quem governa. Nas eleições para vereador de 2008, a Comunidade de Itapagipe deu, aos 41 candidatos atualmente eleitos, 26.060 votos. Nenhum é pertencente à Itapagipe. Aos candidatos a vereador oriundos de Itapagipe, ou seja, que moram na Comunidade, apenas 24.000 votos. E a outros candidatos que vieram de fora, que não residem neste complexo demográfico, 27.000 votos. 

Meu Deussssssssssssssss... a população jogou 27 mil votos fora?!! Calma lá, tem mais. Dos 41 atualmente eleitos, nenhum tem projeto para a bela Península Itapagipana. De tudo que se pode analisar, amiúde, não há sequer um requerimento, nem mesmo para troca de lâmpada. Mas o povo não quer saber, afinal política é coisa de gente grande, gente que tem nome, que anda de terno e gravata. 

Alguns equívocos devam ser esclarecidos, antes que estejamos à beira de uma nova tragédia eleitoral. Ainda se ouve por aí o tal “eu não gosto de política”, “a política é corrupta”, e por aí vai.  Primeiramente, todo cidadão precisa ter acesso à educação, a moradia, a água potável, tira identidade, pede desconto em compras, deseja taxas menores de imposto e energia elétrica, e assim caminha a humanidade. Por isso, é inevitável que participe ativamente em seu meio social, no caso, tenha um posicionamento político, mesmo que este seja pouco expressivo. 

Em segundo lugar, falhamos muito em diferenciar política depoliticagem, e ao emitirmos uma opinião, comprometemos todo nosso futuro por causa de detalhes minúsculos. A política é o uso do poder, processo ideológico-humano, para administrar a convivência de uma nação ou povo. Politicagem, diferentemente, nada mais é do que o abuso deste poder. Sim, ouvimos falar de acordos milionários, troca de cargos, Caixa 2, troca de apoios políticos, mensalão, entre outros. Esta é a politicagem, e por causa dela costumamos encarar a política como uma comida indigesta. Então, só discutimos política quando estamos próximo das eleições, vamos às urnas praticamente desinformados e esquecemos que somos nós, eleitores, que escolhemos o rumo que tomará nossa nação. Não percebemos que nossa indiferença frente a ela apenas transfere para as mãos de uns poucos as decisões e direitos que podem e devem alcançar a todos.

Creio que política não resume-se em apenas utilizar o poder. É uma definição muito pouco satisfatória a esta altura em que as fronteiras cada vez mais diminuem. É representar os interesses do povo, é ação em prol de toda uma comunidade, é usar de meios totalizantes de direitos e acesso aos bens comuns necessários à humanidade. E, sobretudo, não é teatro nem qualquer tragédia grega, é realidade. Por isto, não jogue seu voto fora, pense antes de votar. O final você escolhe!