quarta-feira, 17 de abril de 2013

A tragédia eleitoral de 2008: Reflexões




O significado clássico da palavra tragédia diz respeito à impossibilidade de, uma vez em movimento, se alterar o curso dos acontecimentos. Segundo Max Gehringer, o sentido figurado de ‘desastre de grandes proporções’ nasceu no século XV na bela França, devido ao fato de as tragédias teatrais gregas, ao contrário dos filmes americanos, nunca apresentarem um final feliz.  Na tragédia grega, curiosamente, o fim terrível era antevisto, todavia, nada se podia fazer para evitá-lo. 

Eis a sensação que paira sobre as eleições de 2008. É um dos episódios eleitorais que não costumamos lembrar, pois dá asco, dá urticárias no estômago e nos enoja falar de ‘desastres em grandes proporções’ na bela Península Itapagipana, o paraíso esquecido. Mas o que houve?! O que é que há?! Não lembra? Pare um pouco e iremos recordar.

A Península Itapagipana possui 11 bairros e aproximadamente 86 mil eleitores. Contudo, apenas 77 mil são eleitores votantes, ou seja, que realmente vão às urnas para usar os dedinhos e decidir quem governa. Nas eleições para vereador de 2008, a Comunidade de Itapagipe deu, aos 41 candidatos atualmente eleitos, 26.060 votos. Nenhum é pertencente à Itapagipe. Aos candidatos a vereador oriundos de Itapagipe, ou seja, que moram na Comunidade, apenas 24.000 votos. E a outros candidatos que vieram de fora, que não residem neste complexo demográfico, 27.000 votos. 

Meu Deussssssssssssssss... a população jogou 27 mil votos fora?!! Calma lá, tem mais. Dos 41 atualmente eleitos, nenhum tem projeto para a bela Península Itapagipana. De tudo que se pode analisar, amiúde, não há sequer um requerimento, nem mesmo para troca de lâmpada. Mas o povo não quer saber, afinal política é coisa de gente grande, gente que tem nome, que anda de terno e gravata. 

Alguns equívocos devam ser esclarecidos, antes que estejamos à beira de uma nova tragédia eleitoral. Ainda se ouve por aí o tal “eu não gosto de política”, “a política é corrupta”, e por aí vai.  Primeiramente, todo cidadão precisa ter acesso à educação, a moradia, a água potável, tira identidade, pede desconto em compras, deseja taxas menores de imposto e energia elétrica, e assim caminha a humanidade. Por isso, é inevitável que participe ativamente em seu meio social, no caso, tenha um posicionamento político, mesmo que este seja pouco expressivo. 

Em segundo lugar, falhamos muito em diferenciar política depoliticagem, e ao emitirmos uma opinião, comprometemos todo nosso futuro por causa de detalhes minúsculos. A política é o uso do poder, processo ideológico-humano, para administrar a convivência de uma nação ou povo. Politicagem, diferentemente, nada mais é do que o abuso deste poder. Sim, ouvimos falar de acordos milionários, troca de cargos, Caixa 2, troca de apoios políticos, mensalão, entre outros. Esta é a politicagem, e por causa dela costumamos encarar a política como uma comida indigesta. Então, só discutimos política quando estamos próximo das eleições, vamos às urnas praticamente desinformados e esquecemos que somos nós, eleitores, que escolhemos o rumo que tomará nossa nação. Não percebemos que nossa indiferença frente a ela apenas transfere para as mãos de uns poucos as decisões e direitos que podem e devem alcançar a todos.

Creio que política não resume-se em apenas utilizar o poder. É uma definição muito pouco satisfatória a esta altura em que as fronteiras cada vez mais diminuem. É representar os interesses do povo, é ação em prol de toda uma comunidade, é usar de meios totalizantes de direitos e acesso aos bens comuns necessários à humanidade. E, sobretudo, não é teatro nem qualquer tragédia grega, é realidade. Por isto, não jogue seu voto fora, pense antes de votar. O final você escolhe!