Ao vislumbrar a grande
aflição que jaz no mundo atual são inúmeras as sensações de desesperança e desespero
por parte da população mundial. A perseguição religiosa apenas aumentou neste
tempo, enquanto vemos diante de nossos olhos o debate pelo estímulo do pecado e
da imoralidade (acredite se quiser) nos órgãos públicos. Na Inglaterra, mil sacerdotes
católicos denunciaram que a liberdade de praticar e propagar a fé será
severamente comprometida se o casamento de pessoas do mesmo sexo for aprovado.
E tudo que brota no
balanço deste novo inverno são indagações indesejadas como: “Por que Deus
permite que coisas terríveis aconteçam?” Sim, julgaríamos ligeiramente tudo estar
indo na direção contrária, embora o Evangelho ainda seja a promessa irrevogável
de uma esperança muito superior do que qualquer outra que se possa encontrar.
Rabi Isaque Luria,
assíduo estudioso da Torá, conhecido pelas suas longas estadias a sós no Rio Nilo,
percebeu, como nós, que em seu mundo muitas coisas não estavam no lugar certo. “Talvez”,
ele sugeriu, “é porque Deus precise de nossa ajuda”. E tentou explicar o que
nos salta à vista com uma história mística.
Ao delimitar em
primeira instância a criação do mundo, Deus planejou derramar um Spectrum de
Luz Santa a fim de fazer tudo se tornar real. Deus preparou vasos para conter a
Luz Santa. Mas no decorrer da criação algo deu errado. A Luz era tão radiante
que os vasos estouraram, estilhaçando em milhões de pedaços quebrados como
pratos que caem ao chão. A expressão hebraica que Luria usou para este evento
do “quebrar de vasos” é sh’virat ha-kaylim.
O mundo se tornou
uma balbúrdia porque está cheio de fragmentos. Quando as pessoas se magoam umas
às outras elas consentem que o nosso mundo continue em estilhaços. O mesmo
poderia dizer daqueles que mantém suas dispensas cheia de alimento enquanto
outros passam fome. Luria, que já não está mais neste mundo, decerto diria que
vivemos em meio a uma multidão de pedaços quebrados, e Deus não pode repará-lo
sozinho. Temos a liberdade de escolher o que queremos que o nosso mundo seja.
Podemos permitir que as coisas permaneçam quebradas, ou podemos reparar o
estrago. Para o fenômeno de “reparação do mundo”, Luria usa a expressão
hebraica tikkun olam.
Como agentes e
mensageiros de Deus, nossa incumbência é descobrir o que está estilhaçado em
nosso mundo para que possamos repará-lo. A Bíblia Sagrada não só nos ensina a
viver como cidadãos do Reino dos Céus, mas a como restaurar o mundo. Ao colocar
Adão e Eva no Jardim do Éden, Deus não somente disse a eles que não comessem da
árvore do conhecimento, mas ordenou que protegessem e cultivassem o jardim.
A vida é uma dádiva
de Deus a cada ser. E a história de Adão e Eva continua a acontecer a cada
pessoa. O Jardim do Éden é o nosso mundo, e somos Adão e Eva. Quando Deus diz, “Cultivai
e guardai o Jardim”, Ele também diz, “Cuida do seu mundo e proteja-o”.
Quando vir algo
quebrado, conserte. Quando achar algo que está perdido, retorne-o. Quando vir
algo que precisa ser feito, faça. Desta forma cuidará do seu mundo e terá a
oportunidade de reparar a criação. Se assim fosse com todos, nosso mundo seria
um verdadeiro Éden, um lugar que assim Deus planejara que fosse. Comece com
pequenos passos, jamais desprezando os humildes começos.
